domingo, 29 de maio de 2011

ENTREVISTA PARA O JORNAL DE OPINIÃO REVISTA - VIVER O ECUMENISMO

Semana de oração pela unidade dos cristãos – 05 / 12 de junho

Irmã Márcia Maria Lobo Leite/ CONIC-MG

Fiéis das denominações cristãs que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, Regional Minas Gerais (CONIC-MG) se unem na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, em oração, à luz do tema:” Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42-46).

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, já em sua 103ª edição, é um momento dos mais privilegiados do Movimento Ecumênico internacional e nacional, segundo a presidente do CONIC-MG, Irmã Márcia Maria Lobo Leite, da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, pois a “Oração é a alma do Movimento Ecumênico”.

Ao ser questionada sobre o fato de ter sido reeleita para presidir o CONIC-MG, a religiosa acredita ter conquistado a confiança dos representantes das Igrejas Cristãs integrantes do Conselho por tratar o “ecumenismo com amor, seriedade, transparência e cuidado, promovendo o diálogo a partir daquilo que aproxima as várias tendências cristãs. “ Irmã Márcia ressalta que o ecumenismo é uma dimensão na vida da Igreja e não uma mera opção pessoal, mas um apelo evangélico (Jo 17,21-13). O caminho ecumênico é o caminho da Igreja; o desígnio de Deus é a comunhão (Cf. Ut Unum Sint, 1).


1. O que significa viver o ecumenismo?

R. Significa compreender e o experienciar como ‘Estilo de vida’, norteado pelo respeito às diferenças, transparência nas relações, traduzida num diálogo correto, sincero, autêntico, compreensivo, vendo no outro/a uma pessoa que merece toda a nossa reverência, amizade, solidariedade, seja ela quem for, não importando a sua condição cultural, social, confessional etc. Somos todos irmãos/ãs.

O Reino de Deus não faz acepção de pessoas. Hoje, mais do que nunca precisamos entender o Movimento ecumênico como um caminho a ser percorrido em direção da Paz, nas micro e macro relações, priorizando a VIDA, Dom Maior (Jo 10,10). Temos boas razões para sermos ecumênicos: Jesus pediu a Unidade de seus discípulos e discípulas; temos uma base doutrinária comum: a mesma fé batismal trinitária, o mesmo Cristo, Senhor e Salvador, segundo as Escrituras, o mesmo Credo. Uma orientação pode nos ajudar: No essencial: a Unidade. No que é próprio de cada Igreja: a liberdade. Em tudo a Caridade e a fidelidade a Jesus, o Cristo. (Agostinho de Hipona)

2. O Movimento Ecumênico, hoje, é bem aceito dentro das Igrejas?

R- O Movimento Ecumênico iniciado há tantos anos pelas Igrejas da Reforma e na Igreja Católica Romana, de forma intensa, a partir do Vaticano II ( Decreto Unitatis Redintegratio, sobre a Unidade dos Cristãos), ainda é considerado algo estranho entre grande número de fiéis. Consideramos a formação para o ecumenismo ainda muito insipiente. Existem muitas iniciativas positivas no aspecto da formação seminarística e laical, porém a pouca informação e formação neste particular fazem com que seja visto ainda com muita suspeita e indiferença.


Mas, pensemos nos significativos passos que já foram dados, neste particular, no campo da reflexão teológica e da ação social, através do Conselho Mundial de Igrejas (CMI); do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI); do CONIC Nacional e dos Regionais, além de outras instituições que promovem a Unidade na Diversidade. Não podemos nos esquecer das Campanhas da Fraternidade Ecumênicas (2000, 2005, 2010), com grande alcance no campo do ecumenismo prático, com iniciativas em favor da vida e da inclusão social. Com relação ao CONIC-MG, podemos perceber uma gradativa aceitação, crescimento qualitativo e numérico.

Entendemos, também, que o Movimento Ecumênico é um Movimento profético, interpelando-nos cotidianamente para sermos luz “na escuridão da noite”, pois caminha na contra mão da cultura moderna individualista e hedonista. Trata-se de um privilégio mesmo, darmos a nossa contribuição, por menor que seja, na reconstrução da Oikoumene, a nossa Terra, a nossa Casa, a única que temos. Sem unidade não poderá haver Paz e Reconciliação entre nós.

3. Diante de tantas manifestações de fé, como o CONIC-MG promove o diálogo com estas múltiplas identidades?

R – Em princípio é bom reconhecer que não ‘somos donos da verdade’. Existem várias maneiras de conceber e exprimir a fé cristã ou religiosa. Deus é imprevisível e inesgotável em suas manifestações. “O Espírito sopra onde e como quer”. Outra questão é a importância de abraçarmos a nossa identidade, sem a qual não se faz ecumenismo.

A soma das identidades promove a Unidade na diversidade, ou melhor “a diversidade reconciliada”. Trata-se de um grande desafio, porém, Deus o Pai de todos/as não nos pede coisas impossíveis. Quando se tem em mente o Projeto Maior, a Comunhão, nossa Meta, a Meta da Humanidade, vale a pena todo esforço e todo o empenho. Não podemos identificar os meios (expressões de fé cristãs/ religiosas) com o Fim que é Deus Trindade, “A melhor Comunidade”, modelo de relação amorosa autêntica para todos nós, criaturas humanas. “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a lei” (Rm 13,8).

Em nossas Reuniões e Assembléias temos como hábito o diálogo a partir do que nos une e não do que nos divide. A riqueza de nossa fé transcende as diferenças. É um caminho longo a ser percorrido, mas como disse acima, muitas conquistas já foram alcançadas. Sobre isto temos uma rica bibliografia em documentos e livros disponíveis em nossas livrarias e editoras católicas e cristãs de outras confissões.

4. Jesus na Ceia deu exemplo de comunhão para todos os discípulos cristãos. A Santa Ceia é importante. E neste sentido inspira o Ecumenismo? Podemos afirmar que a Santa Ceia inspira o Ecumenismo, por ser exemplo de comunhão entre os discípulos?

R- A Eucaristia é o Sacramento da Unidade, fonte e ápice da vida Cristã. Significa e realiza a comunhão. Como comungar divididos? Se Comungo o Corpo de Cristo, comungo o seu Projeto, digo amém ao que Ele pediu: Para que todos sejam um.... E o mundo creia que tu me enviaste”. (Jo 17,21-23). Tanto para os católicos, como para as outras denominações pertencentes ao CONIC, a Santa Ceia é essencial no fortalecimento da fé cristã. As Igrejas integrantes do CONIC se alimentam da Santa Ceia e acreditam mesmo na presença Real do Senhor neste sacramento. Só que, para os católicos esta Presença se perpetua no Sacrário: Santíssimo Sacramento do Altar.

5. Do ponto de vista do Ecumenismo, como a senhora interpreta a conduta de líderes religiosos que pontuam equívocos nas outras religiões, para defender pontos de vista próprios das denominações
a que pertencem?

R - Todo o proselitismo não vem de Deus. Não faz parte do Ecumenismo. Não é sincero. Diálogo SIM, proselitismo, NÃO! A Semana de Oração nos pontua a necessidade de orarmos sem cessar. A Espiritualidade Ecumênica, garantida pela fé em Deus Trindade e pela Oração de Jesus, é o ponto de encontro entre todas as pessoas, de diferentes credos. Na oração nós nos encontramos de uma forma real e concreta. Na oração nós nos entendemos. Somos criados para a relação com o nosso Deus, num diálogo ininterrupto.


Todos temos necessidade de orar, independentemente da fé que abraçamos. Através da oração buscamos forças para o perdão, necessário para a cura das feridas entre as Igrejas, acumuladas ao longo dos anos.


Neste sentido as diferenças tornam-se relativas diante do essencial, que é a nossa relação profunda com a “Trindade que habita em nós”, mantendo conosco constante e efetivo diálogo. “Orar é falar de amor, com quem entende de amor” (Tereza de Ávila). E o tema deste ano, nos elucida o melhor caminho para buscarmos o testemunho visível de Unidade, segundo a Primeira Comunidade Cristã: assiduidade aos ensinamentos dos apóstolos; a comunhão fraterna (koinonia); celebração da Eucaristia (a fração do pão); e a atitude constante de oração. Não nos esqueçamos de que “o Ecumenismo é Dom do Espírito”, às Igrejas, ao Mundo.

6. Os Cristãos que buscam viver o Ecumenismo podem contribuir de forma mais intensa na edificação de um mundo melhor?

R - Tudo o que Deus quer para a humanidade é a Paz, algo que é buscado, de forma comum, por todas as Religiões. Nenhuma delas deseja a guerra, prejuízo contra a vida de milhares e milhares de pessoas vítimas de tantas atrocidades. O Cristianismo tem um papel de suma e incontestável importância nesta missão de promover a paz, que nasce de cada coração humano, tocado pelo Evangelho de Jesus Cristo. Ghandi promoveu a independência da Índia com jejum e oração.

O potencial de amor contido em cada Religião, com toda a certeza dará um contributo imenso a favor da desejada e necessária paz. Porém sem paz nas Religiões não haverá paz na Terra (Cf. Hans Kung – Projeto de Ética Mundial, Paulinas).

7. É possível dizer que a caminhada rumo ao ecumenismo segue veloz? R - Esta caminhada segue o movimento da própria história em seus avanços, estagnação e recuo. O importante á não perder de vista a UTOPIA, que para nós se chama ESPERANÇA. O Cristianismo é a Religião da Esperança, a ser vivenciada construtivamente, dinamicamente, numa ‘fidelidade criativa’. Os desafios estão aí para nos impulsionar para frente e não para trás. Hoje com tantos movimentos e grupos religiosos brotando, nascendo e crescendo de uma forma incontrolável, sentimo-nos, muitas vezes impotentes.

Porém a obra é de Deus, e como seres humanos somos responsáveis pelo cuidado desse imenso jardim, que é a oikoumene, a terra habitada, num processo continuo de ser cada vez mais habitável, mais humana, reconciliada e feliz. “Faz ecumenismo quem luta por dignidade, quem defende os direitos dos grupos empobrecidos, quem exige e promove a justa partilha dos bens (oikos-nomia), quem trabalha pela promoção do meio ambiente (oikos-logia).” Ser ecumênico é ser cristão/ã, assumindo um estilo de vida, marcado pela busca da COMUNHÃO, onde quer que estejamos, na condição na qual nós nos encontramos,independentemente de nossa fé, credo ou tradição religiosa.

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