Domingo, 12 de junho 2011: festa de Pentecostes
Atos 2,1-11; Salmo 103; 1 Coríntios 12,3-7.12-13; João 20,19-23
Quando dizemos que Deus é Espírito, estamos querendo dizer, entre outras coisas, que sempre que tentamos pegá-lo ele nos escapa. Ninguém pode dizer que possui o Espírito Santo. Não. Ninguém o possui. Ele é que vem sempre até nós, sem cessar, sempre novo.
Em certo sentido, Pentecostes é todo dia, é permanente, ainda que, é claro, haja sempre a possibilidade de lhe fecharmos as portas. O Espírito vem de alguma parte e nos leva a outra parte. Assim que veio sobre Jesus, em seu batismo no Jordão, este que foi declarado o Filho muito amado pôs-se imediatamente a caminho, sendo “levado pelo Espírito” até o deserto, o lugar simbólico em que o homem é posto à prova e obrigado a escolher entre o que é humano e o que não é.
No Pentecostes, assim que visitados por este sopro que por sua ligeireza e mobilidade ganha a figura de um pássaro, os discípulos vêem as portas de seu gueto se abrirem e, vencendo o medo, vão ao encontro do mundo inteiro. No início de sua missão, o Espírito faz com que Jesus escolha o amor, pelo que teve que pagar com o preço da vida; a solidão do deserto e da Cruz. No Pentecostes, o Espírito arrebenta o túmulo em que se tornara aquela casa trancada e faz com que nasça para a vida um Corpo novo, co-extensivo ao universo. O Pentecostes cumpre o que, no batismo, se havia prometido.
É por isso, sem dúvida, que a Igreja sempre hesitou em separar ou em unir os sacramentos do batismo e da confirmação. O Espírito, que é efusão de Deus, está no início, no fim e em todo o percurso. Mas esse final é apenas o acabamento do ser humano que, daí em diante, se põe a caminho de um novo futuro.
Jamais estamos sós
O Espírito é o sopro de Deus, esse vento que em Gênesis 1 faz agitar a superfície das águas sobre o abismo, figura do nada. É claro que Deus não tem nenhum sopro material. O sopro, aqui, é símbolo da vida; podemos falar também de Deus que sai de si mesmo.
Em Gênesis 2, vemos o sopro divino ser comunicado ao homem, quando este era ainda um mero boneco de barro, fazendo dele um vivente. Por este relato ficamos sabendo que o homem vive tão somente da vida de Deus. E não é verdade que tudo que existe só existe em Deus? E que tudo que vive só vive por sua vida? Assim, então, jamais estamos sós.
Deus está sempre aqui, onde nós estamos. Mas, então, o que significa o Pentecostes se, desde o princípio, o sopro de Deus já estava no meio de nós? E o que significa o final do evangelho de hoje, onde se diz que o Espírito não havia sido dado ainda, porque Jesus não tinha sido ainda glorificado? Começamos este comentário dizendo que o Espírito vem a nós incessantemente, sempre novo. O que significa que a nossa criação se faz sem cessar, que ela nos é contemporânea.
Atos 2,1-11; Salmo 103; 1 Coríntios 12,3-7.12-13; João 20,19-23
Quando dizemos que Deus é Espírito, estamos querendo dizer, entre outras coisas, que sempre que tentamos pegá-lo ele nos escapa. Ninguém pode dizer que possui o Espírito Santo. Não. Ninguém o possui. Ele é que vem sempre até nós, sem cessar, sempre novo.
Em certo sentido, Pentecostes é todo dia, é permanente, ainda que, é claro, haja sempre a possibilidade de lhe fecharmos as portas. O Espírito vem de alguma parte e nos leva a outra parte. Assim que veio sobre Jesus, em seu batismo no Jordão, este que foi declarado o Filho muito amado pôs-se imediatamente a caminho, sendo “levado pelo Espírito” até o deserto, o lugar simbólico em que o homem é posto à prova e obrigado a escolher entre o que é humano e o que não é.
No Pentecostes, assim que visitados por este sopro que por sua ligeireza e mobilidade ganha a figura de um pássaro, os discípulos vêem as portas de seu gueto se abrirem e, vencendo o medo, vão ao encontro do mundo inteiro. No início de sua missão, o Espírito faz com que Jesus escolha o amor, pelo que teve que pagar com o preço da vida; a solidão do deserto e da Cruz. No Pentecostes, o Espírito arrebenta o túmulo em que se tornara aquela casa trancada e faz com que nasça para a vida um Corpo novo, co-extensivo ao universo. O Pentecostes cumpre o que, no batismo, se havia prometido.
É por isso, sem dúvida, que a Igreja sempre hesitou em separar ou em unir os sacramentos do batismo e da confirmação. O Espírito, que é efusão de Deus, está no início, no fim e em todo o percurso. Mas esse final é apenas o acabamento do ser humano que, daí em diante, se põe a caminho de um novo futuro.
Jamais estamos sós
O Espírito é o sopro de Deus, esse vento que em Gênesis 1 faz agitar a superfície das águas sobre o abismo, figura do nada. É claro que Deus não tem nenhum sopro material. O sopro, aqui, é símbolo da vida; podemos falar também de Deus que sai de si mesmo.
Em Gênesis 2, vemos o sopro divino ser comunicado ao homem, quando este era ainda um mero boneco de barro, fazendo dele um vivente. Por este relato ficamos sabendo que o homem vive tão somente da vida de Deus. E não é verdade que tudo que existe só existe em Deus? E que tudo que vive só vive por sua vida? Assim, então, jamais estamos sós.
Deus está sempre aqui, onde nós estamos. Mas, então, o que significa o Pentecostes se, desde o princípio, o sopro de Deus já estava no meio de nós? E o que significa o final do evangelho de hoje, onde se diz que o Espírito não havia sido dado ainda, porque Jesus não tinha sido ainda glorificado? Começamos este comentário dizendo que o Espírito vem a nós incessantemente, sempre novo. O que significa que a nossa criação se faz sem cessar, que ela nos é contemporânea.
O que então acontece de novo, com essa vinda do Espírito de que nos fala o Novo Testamento? Pois é justamente o nascimento de um homem novo, de uma nova humanidade. É como se o Espírito de Deus, que nos faz viver desde que a vida existe, não pudesse ainda encontrar em nós o acolhimento perfeito da nossa liberdade. Mas o que é então que se passou com a “glorificação” do Cristo, o Filho do homem?
Um novo nascimento
Isto que chamamos “pecado original” pode corresponder a esta espécie de reflexo de defesa com que agimos espontaneamente desde o surgimento da consciência humana. Temos medo da vida, temos medo do outro... E, quando éramos crianças, os nossos pais tiveram de nos ajudar a superar o medo que sofríamos em relação até mesmo a eles próprios. O medo leva as pessoas a se prevenirem com armas; por isso as Escrituras fazem a história da humanidade começar com um homicídio.
Sabemos que essa hostilidade mortal dos irmãos inimigos percorre todo o relato bíblico: Jacó e Esaú, José e seus irmãos, Davi e Saul e, por fim, o judeu e o pagão cuja hostilidade vai cristalizar e simbolizar toda a violência humana. Até que, em Cristo, teremos um homem que se recusa a responder à violência com uma segunda violência, submetendo-se à vontade assassina dos homens. Com ele, toda sorte de violência se vê, portanto, renegada: a violência que destrói, a violência que pune, a violência que domina, etc. Com o Cristo, o Espírito é acolhido em sua totalidade neste mundo, e aprendemos que este Espírito que nos faz vivos é Amor. Este é o fim do medo assassino!
De uma só vez, a humanidade está pronta para se constituir num único corpo, no qual as nossas diferenças todas se conjugam, ao invés de nos levarem a nos opormos (ver a 2a leitura). Cabe a nós, portanto, em nossa liberdade, escolher as sugestões de unificação sopradas pelo Espírito do amor.
Marcel Domergue (traduzido de www.croire.com )
Um novo nascimento
Isto que chamamos “pecado original” pode corresponder a esta espécie de reflexo de defesa com que agimos espontaneamente desde o surgimento da consciência humana. Temos medo da vida, temos medo do outro... E, quando éramos crianças, os nossos pais tiveram de nos ajudar a superar o medo que sofríamos em relação até mesmo a eles próprios. O medo leva as pessoas a se prevenirem com armas; por isso as Escrituras fazem a história da humanidade começar com um homicídio.
Sabemos que essa hostilidade mortal dos irmãos inimigos percorre todo o relato bíblico: Jacó e Esaú, José e seus irmãos, Davi e Saul e, por fim, o judeu e o pagão cuja hostilidade vai cristalizar e simbolizar toda a violência humana. Até que, em Cristo, teremos um homem que se recusa a responder à violência com uma segunda violência, submetendo-se à vontade assassina dos homens. Com ele, toda sorte de violência se vê, portanto, renegada: a violência que destrói, a violência que pune, a violência que domina, etc. Com o Cristo, o Espírito é acolhido em sua totalidade neste mundo, e aprendemos que este Espírito que nos faz vivos é Amor. Este é o fim do medo assassino!
De uma só vez, a humanidade está pronta para se constituir num único corpo, no qual as nossas diferenças todas se conjugam, ao invés de nos levarem a nos opormos (ver a 2a leitura). Cabe a nós, portanto, em nossa liberdade, escolher as sugestões de unificação sopradas pelo Espírito do amor.
Marcel Domergue (traduzido de www.croire.com )
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