Em encontro de Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, com jovens da comunidade judaica de São Paulo, realizado em 28 de julho na capital paulista, representantes da Igreja Católica e da comunidade judaica paulista informaram que estudam a organização de atividades conjuntas para a promoção da justiça social.
Os contatos para tratar a questão estão sendo feitos pelo Padre José Bizon, assessor da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB e participante da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico (CNDCJ); por Alberto Milkewitz, diretor institucional da Federação Israelita de São Paulo (Fisesp); e Raul Meyer, ativista comunitário e responsável pelo núcleo de relação com os católicos na Fisesp.
Segundo Bizon, as seguintes entidades católicas participarão da ação conjunta: Hospital Amparo Maternal, Centro Nossa Senhora do Bom Parto, Cáritas e Irmãs Palotinas. A Fisesp deve definir em breve o formato institucional da participação judaica.
No rico debate, que abordou o diálogo entre católicos e judeus, Odilo Scherer afirmou que há muito mais concordâncias que divergências entre as duas religiões. “A promoção da tzedaká, justiça social, é nosso caminho comum, a partir de nossa base comum. O papel da religião é o cuidado com o humano”.
Scherer lembrou que o contato entre judeus e católicos no Brasil remete a meados do século 20, entre o Padre Humberto Porto, capelão do Colégio Sion, e Hugo Schlesinger, um dos fundadores, no Brasil, da Fraternidade Cristão-Judaica, instituição que nasceu na Europa logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Schlesinger é avô do rabino Michel, da Congregação Israelita Paulista, que participou do debate de ontem e é representante da Confederação Israelita do Brasil na promoção do diálogo inter-religioso entre judeus e católicos
O rabino explicou os quatro níveis em que ocorre este diálogo: institucional, teológico, ações sociais e contatos pessoais. Ele observou que o diálogo ocorre em diversas capitais brasileiras e que são promovidos encontros anais de âmbito nacional. Em 2011, o encontro será em Curitiba. Para mais detalhes sobre a aproximação entre judeus e católicos, leia entrevista concedida por ele ao site da Conib.
Odilo Scherer ressaltou a importância da Declaração Nostra Aetate para a aproximação entre as duas comunidades. Ela foi publicada em 1965 pelo Papa Paulo VI, durante o Concílio Vaticano II, convocado ainda no papado de João XXIII, e afirma, em seu parágrafo quarto: “Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão, sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos”.
O cardeal revelou sua afinidade pessoal com o judaísmo: “Desenvolvi grande afeição pelo povo judeu, por meio do estudo da Sagrada Escritura. Somos herdeiros da sabedoria do povo de Israel”.
Ele respondeu a perguntas sobre a hierarquia da Igreja Católica, sobre o diálogo com as várias vertentes do cristianismo e com o islamismo, sobre a situação da Igreja Católica na Venezuela (“tensa, nos últimos anos, pois Hugo Chávez quis dividir a Igreja”). Também expôs a posição do Vaticano no conflito entre israelenses e palestinos: a Igreja é favorável à criação de um Estado palestino e à internacionalização de Jerusalém, que se tornaria uma cidade neutra para as três principais religiões monoteístas.
Perguntado se o próximo papa será conservador ou progressista, ele respondeu: “O próximo papa será... um papa”.
O encontro com Odilo Scherer foi promovido pelo Programa de Novas Gerações do Congresso Judaico Latino-Americano, presidido pelo brasileiro Jack Terpins, também presente ao debate.
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