Ouve-se, por vezes, uma crítica à tradição judaica e cristã, acusando-a de ter incentivado a „conquista da natureza‟ ou do planeta Terra, resultando nas trágicas consequências que hoje percebemos. O sinal verde para essa fatídica conquista teria sido a frase de Gênesis 1,28:
E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.
Estas palavras, "multiplicai-vos, enchei a terra, sujeitai-a [ou: subjugai-a] e dominai..." teriam induzido a um „geocídio‟, um atentado mortal contra a Terra
enquanto habitat humano. Não um atentado contra o planeta como tal, no sentido de fazer a Terra desaparecer do mapa. Por enquanto, pelo menos, trata-se „apenas‟ da Terra como ambiente vital do ser humano e dos outros seres vivos (embora não se saiba exatamente onde está a fronteira entre vida e não vida).
De acordo com essas críticas, a tradição judaica e cristã teria entendido que Deus confiou a terra em franquia ao ser humano: "E o SENHOR Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e o guardar" (Gn 2,15) – com as consequências desastrosas que hoje constatamos. E o pior é que, depois do dilúvio, Deus mandou a humanidade recomeçar e se multiplicar: "E vós, frutificai, e multiplicai-vos, aumentai na terra e multiplicai-vos nela" (Gn 9,7).
Quero, primeiro, levantar a questão de saber se é a Bíblia que causou essa atitude dominadora, ou se foi a compreensão interesseira da humanidade – não só no âmbito judaico e cristão – que levou a isso. Percorramos os textos:
Gn 1:26-31 26
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. 27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. 29 E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra, e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. 30 E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez. 31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.
Este texto, que descreve o acabamento da obra da criação (Gn 1,1-31), é a penúltima estrofe do hino de abertura que culminará na instauração do sabá – mensagem principal do hino (Gn 2,1-3).
Aprofundemos: Genesis 1 tem como sobrescrito: "No princípio, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1a). Depois da criação (ou mútua separação) das criaturas, ressoa, em tom de corte celestial (no plural): "Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança" (Gn 1,26). Deus cria um ser que tem prerrogativas semelhantes às dele e dos celestiais: o ser humano, homem e mulher:
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gn 1,27).
O homem é imagem simbólica de Deus (
tselem, não pesel, ídolo!). E "segundo sua semelhança" (demut) significa que ele está para as criaturas como o próprio Deus, pelo menos para aquelas criaturas que Deus confia a sua responsabilidade, conforme o dito do Salmo 115,16: "Os céus são os céus do SENHOR, mas a terra, Ele a deu aos filhos dos homens".
A consciência dessa dignidade encontra-se, sob outra forma, na "história" (as
toledot) da criação do ser humano, Gn 2,4–3,24 (texto que parece ter sido composto antes do hino de abertura em Gênesis 1, mas isso não vem ao caso aqui).
Gn 2,4-5
Esta é a história dos céus e da terra quando foram criados. No dia em que o SENHOR Deus criou os céus e a terra, 5 não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o SENHOR Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.
Gn 2,7
Então, formou o SENHOR Deus ao homem, do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.
Gn 2,15
Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.
O Salmo 8 exprime isso com maior ênfase:
3
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos,
e a lua e as estrelas que estabeleceste,
4
que é o homem, que dele te lembres,
e o filho do homem, que o visites?
5
Fizeste-o, no entanto, pouco menor que Deus [ou: que os celestiais/os divinos]
e de glória e de honra o coroaste.
6
Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão
e sob seus pés tudo lhe puseste:
7
ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo;
8
as aves do céu, e os peixes do mar,
e tudo o que percorre as sendas dos mares.
9
Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico, em toda a terra, é o teu nome!
A consciência bíblica não denota, nem conota, arbitrariedade tirânica alguma quanto ao domínio confiado ao ser humano sobre a terra e o que a enche. A impressão que se tem, ao ler o texto, é a de dignidade e responsabilidade. Mas, já no capítulo seguinte, Gênesis 3, o texto mostra que o ser humano não correspondeu ao que Deus lhe confiou.
O ser humano não respeitou sua própria condição de pessoa de confiança de Deus, querendo para si a única coisa que Deus lhe interditou, o objeto simbólico que é chamado de árvore do conhecimento do bem e do mal. Uma vez que o ser humano não respeita isso, sua vocação de supervisor do jardim se transforma na situação do lavrador de uma terra ingrata, e sua missão de multiplicar-se, em dores de parto. Ou seja, não é por causa do mandamento de Deus, mas por causa de não respeitar a Deus que o ser humano, originalmente em harmonia com a terra,
adam de adamah, começa a ter com a mesma uma relação negativa. Mas quanto ao mandamento em si, este está de acordo com a Sabedoria eterna que se exprime na ideia de "Criador dos céus e da terra" (Gn 1,1) e que é poeticamente evocado em Provérbios 8,30:
Eu estava com Ele e era seu confidente, dia após dia, eu era as suas delícias, brincando perante Ele em todo o tempo;
31 regozijando-me no mundo de sua terra e deliciando-me com os filhos dos homens.
Por isso, as obras da criação são contempladas com satisfação: "Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito bom" (Gn 1,31) – inclusive a criação do ser humano e o mandato a ele confiado.
Honestamente, não creio que desses textos se possa derivar a acusação de geocídio. Antes pelo contrário: Deus ensina ao ser humano a se dar bem com a terra. A imagem do jardineiro, em Gn 2,5, fala claramente neste sentido. Qual o jardineiro que ponha a perder o jardim? Impensável, pelo menos se for jardineiro fiel...
E quanto ao "subjugar e dominar" sobre a terra e os seres orgânicos que nela há, a língua hebraica não tinha muitos termos à disposição para expressar a noção de domínio – certamente não os termos democráticos que nós, hoje, consideramos politicamente corretos! O texto hebraico quer expressar que a organização da terra, para fornecer ao ser humano habitat e alimento, conta com a bênção de Deus. Tal domínio – antes que dominação no nosso sentido – não é um mal. Custa, sim, algum esforço. Daí o termo "sujeitar, subjugar", como se faz com um adversário, mas é claro que a terra não é uma inimiga e sim, o
tevel, o globo firmemente edificado que é confiado ao ser humano para ali viver.
Não se deve atribuir a culpa do geocídio a alguns versículos bíblicos. A culpa está no modo de desenvolvimento do domínio humano, que revela a desmesura da imagem que o ser humano tem de si, esquecendo a que Deus lhe imprimiu. Em vez de se ver como imagem e semelhança do Deus criador, que fez tudo bem feito e do ser humano o gerente de sua criação (Gn 1,26), o ser humano se considera dono absoluto e sem limites. Esquece que ele é a obra prima (aliás, o coroamento) da criação, chamado a ser o vice (o
tselem kidemut) do Criador.
Ora, não podemos negar que o homem europeu ocidental exerceu o seu mandato de vice com muita voracidade. Decerto, o homem ocidental está ligado às tradições bíblicas, mas isso não quer dizer que tudo o que ele fez, e faz, vem dessas tradições...
Na lógica existe uma regra: "
cum hoc, non propter hoc" (coincidentemente, mas não por causa disso). É verdade que os antigos gregos e os árabes e judeus da Idade Média sabiam muitas coisas, que, porém, só na Modernidade foram transformadas na tecnologia que depois tomou ares de conquista da Terra, com as consequências que nestes últimos anos estão sendo percebidas como fatais. E certas civilizações não europeias as estão adotando com muito apetite! Constatamos o sintoma do desenvolvimento incontrolado, que, na medicina, chama-se câncer, e esse sintoma não apareceu nos tempos bíblicos, mas na Modernidade...
Tenho, porém, outra suspeita, não em relação à Bíblia, mas em relação à mentalidade dualista ou platônica no modo de ler a Bíblia e de interpretar a escatologia. Parece-me que, para o dualismo, a terra e o cosmo, por serem passageiros, no fundo não valem nada. Isso é uma visão errada não só da criação, mas também da escatologia. Se se espera novo céu e nova terra, como dizem as Escrituras (Is 51,16; 65,17.22; 2Pd 3,13; Ap 21,1-2), para que nos preocupar com os presentes céus e terra? Em algumas regiões, especialmente nos Estados Unidos, existe a opinião inconfessa de que nosso planeta é descartável e de que devemos conquistar outros espaços. Nada contra a exploração do espaço, também eu preferiria a importação de metais preciosos do espaço em vez da destruição do nosso meio ambiente. Isto, porém, porque acho esta terra valiosa demais e quero conservá-la, não lançá-la ao lixo!
Certo pessimismo em torno da natureza humana, e de tudo, pode provocar no ser humano uma irresponsabilidade destruidora, sobretudo se alguma filosofia sustenta isso. Estou falando do dualismo. Platão teve a infelicidade de não explicar o suficiente que o mito da caverna era só um exemplo escolar. Se as coisas que vemos são apenas sombra da realidade verdadeira – expressão que penetrou até na Carta aos Hebreus (Hb 8,5) –, para que preocupar-se com elas? Não será melhor desprezar esta vida, bem como o mundo no qual, envoltos em sofrimento, a aguentamos? Não é preferível procurar coisa melhor? E esta coisa melhor, no pensamento platônico, não são novos céus e nova terra, mas a imaterialidade da alma imortal.
A Idade Média fomentou amplamente esse pensamento. Desculpem a irreverência, mas, em vez de discutirem teologia, os medievais poderiam ter estudado os ratos e as pulgas e evitado a peste negra, que matou um terço da população europeia no século XIV. Não foi por nada que Marx tentou inverter o idealismo de Hegel e ensinou a olhar para a matéria.
Contudo, o espiritualismo ou fuga do mundo não foi a única coisa que os medievais nos deixaram. Foram exatamente os medievais mais religiosos, os monges, que ensinaram a cultivar a terra sem destruí-la, deixando cada ano descansar, rotativamente, um terço do terreno (mais, portanto, que os sábados da terra na Lei de Moisés!). Foram os monges que ensinaram a replantar os bosques destruídos, para que não acontecesse o que aconteceu com as regiões que uma vez foram os celeiros do Império romano: a Sicília, a África do Norte, hoje desertificadas (certamente não por causa das religiões bíblicas). E foi o mais desprendido dos santos, Francisco de Assis, que cantou o Cântico das Criaturas:
Laudato si‟, mi‟ Signore, per sora nostra matre terra,
la quale ne sustenta et governa,
et produce diversi fructi con coloriti flori et herba [...]
Laudate et benedicete mi‟ Signore' et ringratiate
et serviateli cum grande humilitate.
Então, não vamos acusar a tradição bíblica. Devemos, sim, reconhecer que, por um lado, foi preterida a visão bíblica do domínio senhorial e sapiencial, ou jardineiresco, da criação; e, por outro, que a escatologia, que é o sonho do tempo novo, foi interpretada como desprezo do presente.
Que significaria então o sonho do tempo novo? Essencialmente, que há algo errado no tempo presente. É o gênero literário da utopia. Basta ler a utopia de Tomás Morus para perceber o seguinte: o que mais interessa não é o projeto fantasioso do futuro, mas a crítica sub-reptícia do que está aí, a Inglaterra de Henrique VIII – o contrário do ideal projetado. (O grande erro dos utopistas menos sábios que Morus é querer que sua utopia seja realidade.)
Creio que devemos entender o gênero literário escatológico neste sentido: projeta-se aquilo que há de vir para avaliar melhor o que está aí. O profeta anuncia novos céus e nova terra para dizer que a realidade presente – o reinado decadente de Judá, o exílio babilônico – está passando e cede lugar àquilo que Deus, não Nabucodonosor, realiza.
É, portanto, uma nova criação, ou melhor, a nova realização da criação de sempre, que Deus em sua sabedoria concebeu.
A interpretação negativa do atual mundo encontra alimento no gênero apocalíptico, que costuma anunciar alguma destruição geral antes do „desenlace feliz‟. Aí também há um erro de interpretação: o que deve ser destruído não é a criação como tal, mas o que nela, e sobretudo na história humana, existe de ruim. A utopia escatológica é, antes, a verdadeira realização da „submissão‟ da criação ao ser humano, na paz messiânica:
Is 11,6-9 6
O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. 7 A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi. 8 A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a mão na cova do basilisco. 9 Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar.
Tanto pelo lado do início como pelo lado do fim, a presença humana na criação deve ser considerada como a missão de tomar conta da terra e de suas criaturas, numa perspectiva de
shalom, de bem-estar, o que exclui todo desperdício e irresponsabilidade. A irresponsabilidade –"foi a serpente!"– induz à transgressão do plano de Deus, sendo a causa de todos os males.
Mas isso não resolve o problema ecológico, que a Bíblia não conhecia como tal, nos termos de hoje. A Bíblia apenas nos ensina a encarar a criação com a sabedoria que Deus nos deu e que faz de nos "sua imagem, segundo sua semelhança".
II
Por isso convido para um segundo momento em nossa meditação: como entender positivamente o encargo que Deus confiou a seu vice, o ser humano?
Nesta nova meditação estarão centrais a sabedoria e a esperança. A Bíblia, nos livros dos Salmos, dos Provérbios e de Jó, no deuterocanônico Sirácida e no próprio Gênesis –"Deus viu que era muito bom"– exprime a convicção de que a sabedoria de Deus se manifesta na obra da criação. Se esta obra é parcialmente confiada ao ser humano, e este, no contexto do domínio sobre a criação (Gn 1,26-28), é descrito como "imagem segundo a semelhança" de Deus, podemos com muita plausibilidade supor que essa semelhança sugere a sabedoria humana como participação na sabedoria de Deus.
Aqui cabe uma menção a uma interpretação discutível do fruto do paraíso. Há quem interprete esse fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal como a coragem do ser humano de conquistar a lucidez à custa da inocência e até da imortalidade. Tal interpretação não leva em consideração que o assim chamado pecado de Adão é o início de uma série de transgressões que tornam a situação do gênero humano cada vez mais trágica, até que Deus decide a grande limpeza que é o dilúvio. A aliança com Noé em Gênesis 9 pode então ser interpretada como aliança com uma humanidade pecadora, a qual, apesar disso, não será exterminada por Deus, como vemos também no episódio da aliança mosaica e do bezerro de ouro. Eu insisto nisso para sublinhar que o homem bíblico não é um iluminado da Modernidade, nem um humano superior como sonhava Nietzsche, mas um pecador que, mediante o arrependimento, pode ter acesso ao perdão ou propiciação/expiação, razão pela qual a propiciação ocupa tamanho espaço nas Escrituras de Israel e também na obra de Jesus Cristo, no Novo Testamento.
Em vez de desculpar o homem moderno será melhor perguntar se ele cumpre fielmente o encargo que Deus lhe confiou. A questão é delicada. De repente estamos com 10 bilhões num espaço que na minha infância só precisava abrigar 2 bilhões... A sobreexploração de nosso habitat humano parece algo inevitável. Mas olhemos bem. Quanto desperdício! Não vou analisá-lo, basta abrir os olhos e ler os noticiários. Os economistas liberais vão responder que o desperdício é o preço do progresso, do dinamismo, da inovação; que a industria capitalista é menos perdulária e poluidora que a antiga economia quase monástica da ex-União Soviética etc. A meu ver, em ambas há muita irracionalidade, falta de sabedoria e de humildade. A humanidade não encontrou a equação entre seu crescimento, provocada em grande parte pela melhoria das condições de vida, limitação das catástrofes naturais e bélicas etc., e, por outro lado, o „domínio‟ da criação que lhe foi confiado.
Os ecologistas radicais negarão o dado bíblico de que a criação foi confiada em domínio ao ser humano. Há quem queira que o ser humano não valha mais que um inseto ou uma planta. Mas, pelo que eu saiba, só o ser humano tem suficiente massa cinzenta para dizer isso... No meu entender, a Bíblia supõe a percepção comum de ver na natureza a "província" do ser humano, seu domínio de exploração, e isso significa limitação de outras forças naturais. Darwin descreveu a natureza como um
struggle for life em todos os níveis, e casualmente coincidiu com a visão de Marx sobre a sociedade... Certos povos pedem perdão à árvore que vão abater, mas a abatem...
Ora, o que a visão bíblica acrescenta a essa visão comum é que a presença do ser humano no
struggle for life está submissa a uma instrução de Deus, uma torah. A própria maça do paraíso é expressão do limite que Deus põe (ou significa) para a arbitrariedade humana. O contrário da arbitrariedade é a sabedoria, a ordem de origem transcendente que a razão humana reconhece e, em nome de sua própria humanidade, tem de respeitar. O foco da Bíblia se dirige sobre o mundo humano. Se quiserem chamar a Bíblia de palavra de Deus, é palavra de Deus para o ser humano. Se a "natureza em si" sofre, morre ou sobrevive, isso fica fora de nossa perspectiva. Como se diz: a natureza não morre, apenas se vinga se a gente não a trata bem. Pois bem, minha impressão é de que a visão bíblica nos ensina a tratar bem a natureza em função da criação humana, coroa da criação – segundo a Bíblia. Aliás, não sei se fora desse horizonte o termo "criação" tem sentido.
Então, o encargo do vice de Deus na natureza é administrá-la com sabedoria e responsabilidade, responsabilidade diante do criador da natureza que é destinada ao ser humano. No fundo, trata-se de poupar a natureza para poupar o próprio ser humano. Mas não é isso que está acontecendo.
E agora quero evocar a outra dimensão que mencionei: a esperança. A sabedoria criacional é proto ou arqueológica, estabelece seu ponto de vista no início, na
arkhé. A esperança é escatológica, ou teleológica, procura ver desde o destino, o fim, o telos. Será que o ser humano vai conseguir encontrar a equação entre o caos e o cosmo, entre a irracional cadeia destruidora e reestruturadora da „natureza pura‟ do struggle for life e a „ordem‟ instruída - torah - por Deus como encargo de confiança a seu „vice‟ humano?
Minha intuição é de que essa teleologia é utópica: algo que sempre se deve tentar, um
conatus, mesmo sem ver a coroa do êxito (que talvez seja o sétimo dia criação, o repouso, o sabá). Assim como a saúde ou a limpeza do banho exige sempre recomeçar... Não podemos desistir do conatus. O abismo fatal não é o não alcançar, mas o desistir. É na esperança que reside nossa dignidade. É esta a mensagem que vejo na tradição que se reflete nos textos bíblicos. Resta-nos levarmos adiante nossas tentativas, com o máximo de racionalidade, e também com o reconhecimento de nossos erros e com muita fé, amor e esperança. Além de uma boa dose de mística:
Sl 104: 1
Bendize, ó minha alma, ao SENHOR!
SENHOR, meu Deus, muito grande és tu,
vestido de glória e majestade,
2
coberto de luz como de um manto.
Estendes o céu como um véu,
3
nas águas pões o fundamento da tua morada,
tomas as nuvens por teu carro
e voas nas asas do vento. [...]
10
Tu fazes rebentar fontes no vale,
e as águas correm entre os montes;
11
dão de beber a todos os animais selvagens;
os onagros matam a sua sede.
12
Junto delas pousam as aves do céu
e, por entre a ramagem, recitam seu canto.
13
Do alto de tua morada, regas os montes;
a terra se farta do fruto de tuas obras.
14
Fazes crescer a relva para os animais
e as plantas a serviço do homem,
para que da terra tire o seu pão,
15
o vinho, que alegra o coração do homem,
o azeite, que lhe dá brilho ao rosto,
e o alimento, que lhe sustém as forças.
Tanta polemica por um versículo tão simples:"DOMINAI A TERRA" é fazer cultura;trabalhar a natureza para torná-la útil e a serviço do "todo"ser humano!!!O que há de destruição é consequência de ação humana fora do "ESPAÇO DE DEUS"! Romano Guardini tinha toda a razão quando afirmava que a liberdade é a capacidade exclusiva de fazer o bem, que é o espaço de Deus! Toda a liberdade deve corresponder à SUSTENTABILIDADE. Ponto final e bom proveito.........
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